clientela não prevista no Programa, mas que embora se inclua aí de modo subjetivo, não deixa de ser uma clientela real, que demanda para o outro mas, também, para si mesma, uma vez que o sofrimento do outro se entrelaça ao seu. Não raro verificamos que o sofrimento desse é, às vezes, mais intenso que o daquele.
Assim cada uma dessas quatro clientelas “batem” nesta porta porque esperam encontrar, atrás dela, um significado. Eis o que há de comum nessas especificidades: a busca de um significado para o enigma, a resposta ao não-saber porque passou a sofrer ou porque não supera o sofrimento. Nesta entrada, procuram uma saída.
Portanto, “porta aberta” pode ter um sentido ambíguo, como Lacan indica:
“A porta, por sua natureza, pertence à ordem simbólica, e ela abre para algo, não sabemos muito bem se é para o real ou para o imaginário, mas é para um dos dois. Há uma dissimetria entre a abertura e o fechamento – se a abertura da porta regula o acesso, cerrada, ela fecha o circuito” (LACAN,1985:376).
Este símbolo pode ser um significante de muito peso para o usuário da Saúde Geral, mas, muito mais ainda para o da Saúde Mental, em função da relação do real com o imaginário.
Finalmente, devo me perguntar: encontrei uma resposta para a minha interrogação inicial? Ou, para não fugir da linguagem do campo psicanalítico, encontrei o significado do termo e/ou tema (significante) ‘acolhimento’?
Penso que é próprio das pesquisas em ciências humanas não encontrar respostas exatas, finalizadas em “sim” ou “não” e fechadas em um ponto final. Neste caso, necessário se faz aceitar uma resposta paradoxal, um enlace do ’sim-e-não’.
Tomando de empréstimo um questionamento semelhante já feito por Miller, diante de um outro tema: ‘é glorioso ter uma definição radical? é cômodo? é sólido?’ – Eu concordarei em dizer, que o benefício de uma definição radical para o “acolhimento” é antes a sua fraqueza.
Não encontrei uma definição radical para acolhimento, entretanto, agora, “acolhimento” é, para mim, um significante de muito mais ’significação’ do que antes.
“Acolhimento” vai continuar um termo intercambiante mas, acredito, menos cambiante. Desvendou-se como um significante ‘curinga’, que se apresenta agora, senão com luz própria, porém refletindo com intensidade a luz recebida.
Deixo, neste final, não um ponto para fechar mas, reticências para abrir a quem mais interessar continuar a percorrer esse caminho…
* Especialista em Psicologia Clínica p/ CRPMG.
Especialista em Psicanálise Aplicada a Saúde Mental
p/ UNILESTEMG.
** Artigo publicado na revista Cartas de Psicanálise –
Editada pelo Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise – Vale do Aço
Dezembro de 2004.