Contribuções da Psicanálise a um Serviço de Saúde Mental da Rede Pública. pág.2

Feitas as considerações anteriores, é interessante anotar que Freud, em 1915, escreveu: “Ouvimos com freqüência a afirmação de que as ciências devem ser estruturadas em conceitos básicos e bem definidos. De fato nenhuma ciência, nem mesmo a mais exata, começa com tais definições”(FREUD,1915:137). Temos sempre este impulso de recorrer logo ao dicionário, seja o de línguas, o da disciplina em questão ou qualquer dicionário que esteja ao nosso alcance, para satisfazer de imediato a nossa ambição de saber o que dizer disso ou daquilo, obtendo uma resposta imediatista sobre uma pergunta que nos aflige. Neste caso, não foi diferente, não consegui vencer a tentação, consultei um dicionário de Psicologia e outro de Psicanálise e, para minha frustração (há males que vêm para bem!) não constava neles o verbete tão almejado: acolhimento. Sei que o encontraria no dicionário de Língua Portuguesa, mas a este consegui resistir porque não é a definição da palavra falada no cotidiano das pessoas  que me interessa aqui analisar. O que me instiga neste percurso não é exatamente o significado mas propriamente  o significante. Apesar de, paradoxalmente, estar, justamente, procurando determinar um  significado para um significante.

Busquei apoio nas leituras de Freud, o ‘inventor da psicanálise’ e de três grandes teóricos da psicanálise: Lacan, Maud Mannoni e Miller.

Usarei aqui a linha de raciocínio que Freud, em 1915, fez no início do segundo parágrafo do texto “Pulsões e suas Vicissitudes, no entanto,  aonde ele disse “pulsão”,  direi “acolhimento”. Assim: ‘um conceito básico convencional dessa espécie, que no momento ainda é algo obscuro, mas que nos é indispensável na psicologia, é o de  acolhimento. Tentemos dar-lhe um conteúdo, abordando-o de diferentes ângulos’. É o que tentarei neste trabalho, embora talvez tenha que ser mais humilde, não almejando “dar” um conteúdo mas, apenas tentar desvendar o conteúdo de “acolhimento”.

No capítulo 1.a, fiz referência a um ‘caso clínico’ na prática “acolhimento”; no capítulo 1.b, discorri sobre a “evolução” do “acolhimento” e sua relevância como verificação das condições para o início de uma análise. A seguir, no capítulo 2, interroguei sobre a questão do “acolhedor” ’ser ou não ser’ analista ou analisando e no capítulo 3, finalizando, enfatizei a necessidade da prevalência da ética.

Não por acaso percorri o assunto através da teoria psicanalítica, uma vez que o  trabalho  se constituiu em uma monografia apresentada como requisito de finalização do Curso de Pós-Graduação: “Psicanálise e Saúde Mental” realizado pelo Centro Universitário do Leste de Minas Gerais – UNILESTE-MG.

ACOLHIMENTO: ‘O significante significando’. -  (O que finaliza a monografia) -

A “porta de entrada” a quem demandar a “Saúde Mental”, será a UBS (Unidade Básica de Saúde) na sala de “acolhimento”, que estará de “portas abertas” para receber o “usuário”, que poderá ser ou não o “paciente”, aquele que será “incluído” no PSM  (Programa de Saúde Mental).

“Portas abertas”, assim no plural, para simbolizar que “há vaga”, que não vai levar a porta na cara. Não é que a porta, objeto material, tenha que estar aberta o tempo todo, no sentido literal. Afinal, Lacan também afirmou que “uma porta, quando está aberta nem por isso é mais generosa”. (LACAN,1985:376) A generosidade que o usuário necessita, e espera, daquela porta, é que ela não simbolize um obstáculo. Que seja uma “porta aberta”, ainda que fechada, pois que ali é o lugar em que será recebido, e se preciso, “acolhido”  aquele que chegar demandando algo da ordem do mental, algo que se traduza em um mal-estar, em um “sofrimento”. Por que  o paciente deseja entrar por essa porta? O que ele imagina encontrar lá dentro? O que significa para ele esse lugar?

É preciso questionar se todos os que buscam essa porta, do acolhimento, estão nas mesmas condições de desejo e de demanda. Devo perguntar  se as três clientelas do PSM (Programa de Saúde Mental) chegam ao acolhimento com queixas semelhantes. Respondo, logo a seguir, que é evidente que as apresentações de cada clientela (psicótica, neurótica grave e de sofrimento emocional intenso) são de características diferenciadas.

A demanda nem sempre é do paciente, muitas vezes é do acompanhante que, às vezes, é um membro da família. Os acompanhantes ou a família acabam constituindo uma quarta

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