Contribuições da Psicanálise ao Tema do Acolhimento na Clínica da Saúde Mental no Serviço Público. **
* Jáson Lopes de Carvalho
Síntese: Na monografia apresento a questão: “Acolhimento na clínica da saúde mental no Serviço Público“, propondo contribuições pela teoria psicanalítica. Me propus a investigar o termo e o tema “acolhimento” em saúde mental, em decorrência da percepção de que havia uma intercambiância de sentido na praxis do acolhimento entre os membros de uma equipe interdisciplinar. Fiz uma leitura de Freud, Lacan, Mannoni e Miller, investigando se eles haviam dedicado atenção relevante à mesma questão. Foi surpreendente descobrir na obra de todos eles a importância que deram ao significante, ao conteúdo e à prática do “acolhimento“. De certo modo os três capítulos percorrem esses três aspectos: o acolhimento enquanto significante, qual o seu conteúdo e como é na prática. (apresentarei, aqui, apenas uma notícia do conteúdo da monografia. O trabalho integral encontra-se à disposição dos interessados na biblioteca da UNILESTE-MG).
A decisão de pesquisar o tema do acolhimento na clínica da Saúde Mental no Serviço Público é conseqüência do trabalho no “Programa de Saúde Mental”, que vem sendo efetivado desde 21 de outubro de 2001 pela equipe de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde, na Rede de Saúde Pública do Município de Ipatinga – MG. Participei da elaboração do projeto do programa, da sua implantação e participo da sua prática diária.
O programa tem como público-alvo portadores de psicoses, neuroses graves e sofrimento emocional intenso, excluindo, portanto, outras demandas de saúde mental. Entretanto, o serviço funciona a partir de uma “porta de entrada” que foi denominada, genericamente, por “acolhimento”.
O usuário do serviço, aqui considerado, é o que procura uma “unidade básica de saúde”, seja com um encaminhamento de outros profissionais da saúde ou por iniciativa própria, seja para si ou para outrem. Ao chegar, ele apresenta um “motivo” que entende pertencer ao campo da saúde mental. Muitos desses “motivos” não pertencem e, outros tantos, apesar de pertencerem, não se incluem na demanda priorizada pelo “Programa de Saúde Mental” estabelecido. Entretanto, todos os usuários são “ouvidos” pelo profissional que estiver praticando o “acolhimento”, em geral, um(a) psicólogo(a).
Este primeiro contato em que o usuário apresenta o seu “motivo” de demanda de atendimento em saúde mental, ao profissional designado para recebê-lo e ouvi-lo, é que está denominado no “Programa de Saúde Mental” como “acolhimento”, mas, este contato inicial pode também se constituir de repetidos encontros ou atendimentos.
Desde a implementação do programa o tema “acolhimento” tornou-se polêmico entre os membros da equipe. Para uns o termo se definiria apenas como “triagem”, para outros teria o sentido de uma “porta aberta” (que daria acesso livre a todos que demandassem a saúde mental). Há, também, os que usam o termo no sentido da “escuta”, tal como na clínica psicanalítica ( ou seja, o usuário, ao ser acolhido, de imediato, seria um sujeito a ser “escutado”). Além dessas acepções, surgem outras conceituações como: “consulta prévia”, “entrevista inicial”, “estudo do caso”, “primeiro diagnóstico”, “definição do profissional de referência”. Percebemos que a idéia que se tem ao usar esse substantivo é, possivelmente, individual, ou seja, praticamente não há uma coincidência, entre os praticantes do acolhimento, no pensar o “acolher”.
Diante desse fato, decidi investigar o tema e o termo “acolhimento”, com interesse no desvendamento da origem do seu uso e da sua prática na saúde mental, visando, de início, alcançar um ponto de consenso em que se possa ter, pelo menos, o mesmo entendimento do que o outro tem em mente quando se refere ao termo “acolhimento” na equipe que opera este Programa de Saúde Mental.